A maioria dos empresários ainda trata a reforma tributária como um problema distante, coisa para "lá em 2033". É um erro caro, e ele já começou a ser cobrado. Desde janeiro deste ano a alíquota de teste do novo sistema já aparece na nota fiscal. Em 2027, PIS e Cofins deixam de existir e a CBS entra com a carga cheia. O sistema que vai reger o custo da sua empresa pela próxima década está sendo desenhado agora, enquanto boa parte dos donos olha para o outro lado.
E quando eu digo que a reforma vai quebrar muita empresa, não é pelo imposto em si. É por tudo o que vem antes dele.
O empresário está no escuro
Pergunte a dez empresários o que é CBS, IBS ou IVA Dual. A maioria não vai saber responder. Pergunte o que significa "gerar crédito" dentro do novo modelo e o silêncio é ainda maior. O tema foi terceirizado para o contador, e o dono se convenceu de que, com isso, estava resolvido.
Não está. Reforma tributária não é assunto de retaguarda. É decisão de dono, porque mexe diretamente em preço, margem e modelo de negócio. O contador calcula o imposto, mas quem decide se o preço aguenta, se o cliente é o certo, se o regime ainda faz sentido, é o empresário. Quem não entende o jogo não joga. Apenas recebe a conta no fim do mês.
O governo amarrou e jogou a fiscalização no seu colo
Aqui está a parte que quase ninguém percebeu. O novo sistema funciona em cadeia de créditos: cada elo só aproveita o crédito tributário se o elo anterior fez tudo corretamente. Na prática, isso transforma o empresário em fiscal do próprio fornecedor e em refém do próprio cliente.
Não é mais só o Fisco cobrando de você lá de cima. São os próprios empresários se cobrando dentro da cadeia, um exigindo do outro a nota certa, o crédito certo, o enquadramento certo. Quem não estiver em dia vira um problema para quem compra dele, e simplesmente para de ser contratado. O governo amarrou o sistema de tal forma que a fiscalização deixou de ser obrigação dele e virou tarefa sua.
Quem mais vai sentir
O impacto não é igual para todos, e vale o empresário se localizar no mapa.
Quem presta serviço com poucos insumos sente primeiro. Advogados, médicos, engenheiros, dentistas, consultorias, empresas de TI. Como quase não há o que abater em crédito, a carga sobe e a precificação aperta. Planos de saúde e educação privada também entram na conta, mesmo com alguns descontos previstos. As empresas do Simples Nacional perdem força para gerar crédito às companhias maiores, e correm o risco real de serem trocadas por fornecedores que dão esse crédito. Indústrias que viviam de incentivo fiscal regional perdem o chão. E o Imposto Seletivo, o chamado imposto do pecado, encarece o que for considerado supérfluo ou nocivo.
O que quebra não é a alíquota. É a falta de conta.
A alíquota de referência do novo sistema gira em torno de 28%. É um número alto, mas não é ele, sozinho, que derruba empresa. O que derruba é não ter recalculado preço, margem e fluxo de caixa antes da virada.
Crédito mal aproveitado é dinheiro deixado na mesa, todo santo mês. Precificação velha rodando dentro de um sistema novo é prejuízo silencioso, daqueles que não aparecem no caixa do dia, mas corroem o resultado do ano. O empresário que só vai descobrir o tamanho do impacto quando fechar o balanço vai descobrir tarde demais para reagir.
A diferença entre quem atravessa a reforma e quem quebra nela não está no tamanho da empresa. Está em quem fez a conta antes e quem deixou para depois.
Consciência primeiro, conta depois
Repito o que falo em toda conversa com empresário: você não precisa dominar a técnica. Precisa ter consciência do que está em jogo para saber o que perguntar e a quem perguntar. Boa parte do trabalho pesado se contrata, desde que você saiba o que pedir e por quê.
Na prática, isso significa sentar e responder a perguntas que a maioria está adiando. O meu regime ainda compensa, ou o Simples virou desvantagem para o meu tipo de cliente? O meu preço aguenta a nova carga ou estou vendendo no prejuízo sem saber? Onde a minha empresa está na cadeia, e quanto crédito estou perdendo por desorganização?
Quem responder isso agora atravessa a transição com margem para se ajustar. Quem ficar esperando a poeira baixar vai competir, lá na frente, com quem já fez o dever de casa.
A reforma tributária não vai quebrar quem se preparou. Vai quebrar quem achou que ainda tinha tempo.
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