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Enquanto Ponte Serrada celebra 68 anos de emancipação político-administrativa nesta segunda-feira, dia 27, poucas pessoas podem contar a história do município com tanta autoridade quanto Tereza Acunha Bazi.
Aos 90 anos, a memória da filha de um dos pioneiros da cidade ainda impressiona pela riqueza de detalhes. Sentada em uma cadeira de casa, ela fecha os olhos por alguns instantes antes de responder às perguntas. Em seguida, volta quase um século no tempo e descreve um lugar onde não havia igreja, escola, ruas ou qualquer estrutura urbana. Apenas mato, poucas famílias isoladas e o esforço diário para construir a vida no Oeste catarinense.
“Quando eu nasci, não tinha igreja, não tinha escola, não tinha nada. Nada, nada. Depois foi começando aos pouquinhos”, relembra.
A trajetória de dona Tereza praticamente se confunde com a de Ponte Serrada. Ela nasceu em 1936, em casa, em uma propriedade da família próxima ao caminho que hoje leva ao município de Passos Maia. Ao longo de nove décadas, viu surgir escolas, igrejas, estradas, comércio, novas comunidades e acompanhou o crescimento da cidade que hoje celebra mais um aniversário.
Ao Oeste Mais, conta que em toda a vida nunca morou fora de Ponte Serrada. Fez diversas mudanças de endereço, passando por comunidades como Bahia Alta, Ressaca e Bela Planície, mas sempre ficou dentro dos limites do município onde nasceu. “Fiz muitas mudanças, mas sempre aqui”, reforça.
O homem que atravessou o Rio Paraná a nado
Muito antes de dona Tereza nascer, a história da família Acunha já era escrita na região. O pai dela, Emílio Acunha, nasceu em Assunção, no Paraguai. Aos 18 anos, deixou o país natal acompanhado por outros paraguaios em busca de oportunidades no Brasil. Segundo a filha, a viagem exigiu coragem. Na época, não existiam pontes ou balsas para cruzar o Rio Paraná.
Emílio Acunha, a esposa e duas filhas pequenas, além de uma cuidadora. Filha caçula, Tereza ainda não tinha nascido (Foto: Arquivo pessoal)
“Eles passaram o Rio Paraná a nado. Não tinha que nem hoje, balsa e ponte”, conta.
Depois da travessia, o grupo seguiu lentamente pelo interior, trabalhando na extração da erva-mate durante o percurso até chegar à região onde hoje está Ponte Serrada.
Com facões, os trabalhadores cortavam a erva no mato, faziam a sapecagem no fogo e secavam as folhas em estruturas rústicas de madeira conhecidas como carijós, em um processo em que os feixes de folhas são expostos ao fogo brando de madeiras selecionadas, resultando em uma erva defumada de sabor forte e marcante.
A ponte serrada no braço
Emílio teria chegado às terras do atual município em 1903. Dez anos depois, em 1913, participou do grupo de homens que construiu, de forma totalmente braçal, uma ponte serrada sobre o rio que corta a cidade. A estrutura facilitou a passagem dos tropeiros que viajavam entre São Paulo e Joaçaba, principalmente durante os períodos de chuva, e acabou dando origem ao nome do município.
Construção da famosa ponte serrada de forma braçal (Foto: Acervo Municipal)
Além do trabalho como ervateiro, Emílio Acunha também exerceu funções importantes para a comunidade. “Ele foi juiz de paz. Depois foi delegado. Era muito religioso e muito festeiro,” relata Tereza, que décadas depois da morte do pai, conseguiu realizar um sonho antigo. Há cerca de dois anos, viajou ao Paraguai para conhecer a terra onde ele nasceu. “Foi a primeira vez que eu fui lá. Encontramos os primos”, conta.
Mato e bicho
As primeiras lembranças da infância ainda permanecem vivas. Na memória, dona Tereza tem Ponte Serrada como um lugar muito diferente do que é hoje.
“Aqui era sertão, era mato e bicho, era isso que tinha”.
As famílias eram poucas e praticamente produziam tudo o que consumiam. Cada propriedade tinha vacas de leite, cavalos, carroças e pequenas lavouras. Um cotidiano simples, mas suficiente para a realidade da época.
“A alimentação era pura. A água era pura. Não tinha doença que nem hoje”.
A professora que chegava à escola a cavalo
A educação se tornou a missão de Tereza. Aos 18 anos, começou a dar aulas. Foram duas décadas e meia dedicadas ao magistério, ensinando crianças do primeiro ao quarto ano em escolas multisseriadas, onde várias turmas, de diferentes anos, estudava, na mesma sala.
Mãe de 13 filhos
Foi durante o período em que lecionava na comunidade da Ressaca que conheceu o homem com quem dividiria o resto vida: Valdemar Bazi. No início, admite que não ficou impressionada.
“As moças diziam: ‘você viu como o Valdemar te olhava?’. Eu nem sabia quem era. Depois me mostraram. Não gostei nem um pouquinho” (risos).
Tereza e Valdemar foram casados por 66 anos (Foto: Arquivo pessoal)
Mas a insistência de familiares e amigos acabou aproximando os dois. “Foi uma torcida de tia, de prima… todo mundo queria que eu namorasse ele”, relembra.
Tereza e Valdemar namoraram durante dois anos antes do casamento. A união de mais de seis décadas resultou em uma família de 13 filhos. Valdemar morreu há cerca de três anos.
Ao contrário do que muitos imaginam, dona Tereza não romantiza o passado. Ela reconhece que a vida era mais difícil antigamente. Não havia carros, energia elétrica, estradas ou muitos dos recursos disponíveis atualmente.
“Naquele tempo era mais sofrido. Ou andava a pé ou andava a cavalo”.
Ainda assim, acredita que as pessoas lidavam de maneira diferente com as dificuldades.
“Não era melhor nem pior. Era o tempo da gente.”
Ela também faz uma reflexão sobre as mudanças que presenciou.
“Hoje é muita agitação. As pessoas têm tudo, mas vivem reclamando”.
Patrimônio vivo da cidade
Aos 90 anos, dona Tereza continua morando em Ponte Serrada. Sua vida atravessa praticamente toda a história do município.
Filha de um dos pioneiros que ajudaram a construir a ponte que deu nome à cidade, professora por 25 anos, mãe de 13 filhos e testemunha das profundas transformações do antigo sertão, ela guarda lembranças que ajudam a preservar a identidade de Ponte Serrada.
Enquanto o município comemora 68 anos de emancipação, a história de dona Tereza permanece como um patrimônio vivo da cidade. Ela viu as carroças darem lugar aos automóveis, as trilhas se transformarem em ruas, o surgimento de escolas, igrejas e de uma comunidade que cresceu sem perder suas raízes.
Mudou-se de casa diversas vezes, conheceu diferentes comunidades, mas sempre acompanhou cada etapa desse desenvolvimento. E talvez seja justamente esse detalhe que explique por que sua trajetória se mistura, de forma tão natural, à história do município.
Ao celebrar seus 68 anos, Ponte Serrada homenageia também pessoas como dona Tereza Acunha Bazi, cuja vida se tornou parte da própria história da cidade. Afinal, preservar memórias assim é garantir que as futuras gerações conheçam não apenas datas e fatos, mas pessoas que ajudaram a construir o município com trabalho, amor e coragem.
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